quarta-feira, 1 de abril de 2026

O Propósito da Celebração: Mandato, Memorial e Remissão


Fonte: jw.org

Amanhã, 02 de abril, milhões de pessoas ao redor do mundo realizarão o gesto solene de passar adiante o pão e o vinho. No entanto, diante das palavras de Jesus em Mateus 26:27-28, este ritual carrega uma gravidade que transcende a tradição: se o cálice representa o "sangue do pacto para a remissão de pecados", o ato de passá-lo adiante sem participar torna-se uma declaração pública de que aquele pacto — e, por extensão, aquele meio específico de perdão — está sendo declinado.

Ao cair da noite de amanhã, cada fiel enfrentará um dilema silencioso entre a norma organizacional e o mandato direto do Cristo: "Bebei dele, todos vós". Se a proclamação da morte do Senhor só ocorre, segundo Paulo, "ao comerdes e beberdes", amanhã será o momento de refletir se a nossa presença é uma demonstração de obediência ao Mestre ou apenas um testemunho passivo da nossa própria exclusão do pacto que sustenta a nossa esperança de vida. A memória de Jesus não é honrada apenas pela nossa observação, mas pela nossa aceitação plena do resgate que ele, de forma indivisível, ofereceu a toda a humanidade.

A celebração anual da Refeição Noturna do Senhor é, para as Testemunhas de Jeová, o evento mais sagrado do calendário. No entanto, a prática de observar os emblemas (pão e vinho) serem passados de mão em mão sem que a vasta maioria dos presentes os consuma levanta uma questão teológica fundamental: A obediência ao Cristo é demonstrada pela participação ou pela observação?

A Natureza do Comando: "Fazei Isto"

Ao instituir a ceia, Jesus não utilizou um verbo de contemplação, mas de ação. As palavras registradas em Lucas 22:19, "Persisti em fazer isso em memória de mim", referem-se diretamente ao ato que ele acabara de realizar: partir o pão e distribuí-lo para consumo. Quando a celebração se torna um evento onde o "fazer" é substituído pelo "observar", a estrutura do memorial é alterada. Se a proclamação da morte do Senhor, conforme Paulo descreve em 1 Coríntios 11:26, ocorre "ao comerdes este pão e beberdes este copo", a ausência da participação física descaracteriza, tecnicamente, o ato de proclamar.


O Novo Pacto e a Remissão de Pecados

Um dos pontos mais críticos reside na finalidade do sangue de Jesus. Segundo a própria Tradução do Novo Mundo em Mateus 26:28, o vinho representa o "sangue do pacto, que há de ser derramado em benefício de muitos, para o perdão de pecados".

Aqui surge um dilema lógico: as Testemunhas de Jeová reconhecem que todos os cristãos, independentemente de sua esperança (celestial ou terrestre), são pecadores e dependem do resgate para a vida eterna. Se o pacto foi estabelecido para providenciar a remissão de pecados, e os emblemas são os símbolos desse pacto, recusar os emblemas pode ser interpretado simbolicamente como uma recusa do próprio arranjo legal que garante o perdão. Não se pode usufruir dos benefícios de um contrato enquanto se rejeita a assinatura dos seus termos.


A Distorção entre Governo e Salvação

A conduta de não participar baseia-se na premissa de que apenas os que têm o "chamado celestial" para governar devem comer e beber. No entanto, o texto bíblico não vincula a remissão de pecados (necessária a todos) exclusivamente ao exercício de um cargo governamental. Ao fundir o "Pacto para um Reino" (Lucas 22:29) com o "Novo Pacto" para perdão (Mateus 26:28), cria-se uma barreira desnecessária. O sacrifício de Cristo é a base da salvação de toda a humanidade; logo, o símbolo desse sacrifício deveria ser o elo de união entre o crente e o seu Salvador, e não um divisor de classes.

A Reflexão Necessária

Às Testemunhas de Jeová, cabe uma reflexão honesta: se a presença silenciosa substituísse a ação direta, Jesus teria passado o pão apenas para que seus apóstolos o admirassem. Contudo, ele foi enfático: "Bebei dele, TODOS vós" (Mateus 26:27).

A humildade é uma virtude cristã, mas a obediência a um mandato direto de Cristo é a maior prova de fé. Participar dos emblemas não deve ser visto como um ato de presunção, mas como um reconhecimento público de que se é pecador e de que se aceita, sem reservas, o único meio de salvação providenciado por Deus.

A celebração da morte de Cristo é o momento de união com o sacrifício redentor. Quando o símbolo do perdão passa pelas mãos de um fiel e ele o entrega ao próximo sem participar, ele está, ainda que de forma reverente, mantendo-se à margem do pacto que sustenta sua própria esperança de vida. "Fazer em memória" de Jesus exige, por definição, seguir o exemplo que ele deixou à mesa.

José Gomes

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