No presente texto, darei um depoimento pessoal. Minha jornada espiritual não foi linear, nem protegida pelas paredes de uma instituição. Após minha saída do sistema rígido das Testemunhas de Jeová, vivi um hiato de mais de dez anos longe de qualquer banco de igreja. Nesse "exílio" voluntário, eu vi e ouvi de tudo; mergulhei em questionamentos profundos e cheguei a considerar os argumentos mais crus do ateísmo. No entanto, mesmo no auge da minha ausência institucional, eu nunca estive órfão.
Durante essa década de isolamento religioso, percebi algo que nenhuma doutrina havia me ensinado com clareza: Deus não está confinado a organizações. Senti Sua mão cuidadosa em cada detalhe da minha vida, protegendo-me e guiando-me mesmo quando eu não tinha um rótulo denominacional. Meu retorno à congregação hoje não é um ato de desespero ou carência social, mas uma resposta consciente e grata às orações que Ele ouviu no meu secreto. Voltei porque Ele me chamou, e não porque um sistema me pressionou.
Hoje, minha presença em uma igreja tem um único destinatário: o Criador. Não congrego para agradar homens, para manter aparências ou para cumprir relatórios. Vou para prestar minha adoração Àquele que me sustentou quando eu não tinha "irmãos" por perto. Essa motivação purificada muda tudo. A igreja para mim deixou de ser uma prisão de regras e tornou-se um ponto de encontro espiritual, onde o foco é a gratidão e não a conformidade.
Embora eu respeite a ordem e a autoridade dentro da igreja — reconhecendo o papel dos pastores e líderes como facilitadores da ordem — estabeleci um limite inegociável: pastor nenhum influenciará minhas decisões como cristão. Minha bússola moral e minha relação com Cristo são territórios soberanos. Aprendi, a duras penas, que a voz de um líder religioso é humana e passível de erro. Portanto, ouço com respeito, mas decido com a Bíblia e com o Espírito Santo.
Minha jornada de dez anos foi, acima de tudo, um processo de desaprendizagem do medo. Em sistemas de alto controle, a fé é frequentemente motivada pelo pavor da exclusão ou do julgamento divino. Ao atravessar o "vale da sombra" do ateísmo e das dúvidas intelectuais, percebi que Deus não me puniu por questionar; Ele me sustentou enquanto eu buscava respostas. Hoje, ao entrar em uma igreja, o medo não tem assento ao meu lado. Não congrego por receio de perder a salvação, mas pela alegria de tê-la encontrado fora das amarras do terrorismo religioso. Minha devoção agora é fruto do amor, e o amor perfeito lança fora todo o medo.
A convivência comunitária que busco hoje tem um filtro terapêutico. Olho para os bancos da igreja e não vejo mais "juízes" da minha vida privada, mas companheiros de jornada tão falhos quanto eu. Essa perspectiva me blinda contra o fanatismo: se eu aceito que o pastor e os irmãos são seres humanos em construção, retiro deles o peso de serem infalíveis. Isso me permite ouvir uma pregação com benevolência, mas com um crivo crítico. Absorvo o que edifica a alma e descarto, sem crises de consciência, o que é meramente opinião humana travestida de dogma. A igreja tornou-se um lugar de cura, e não mais um tribunal de sentenças.
Um dos maiores tesouros que resgatei no meu isolamento foi a soberania da minha consciência. Aprendi que a minha relação com o Sagrado é um santuário onde nenhum líder religioso tem a chave. Se no passado eu delegava minhas decisões morais e espirituais a um "escravo fiel e prudente" ou a um corpo diretivo, hoje essa responsabilidade é intransferível. Respeito a estrutura e a ordem da casa, mas o veredito final sobre como devo conduzir minha vida diante de Deus é um diálogo íntimo entre mim e o Criador. Essa autonomia não é rebeldia; é a maior expressão de um "culto racional", onde a inteligência e a fé caminham de mãos dadas.
Por fim, entendi que a liturgia e os ritos são acessórios, mas a experiência direta com o Divino é o essencial. Meus dez anos de "deserto" me ensinaram a ouvir a voz de Deus no silêncio, sem a necessidade de trilhas sonoras ou apelos emocionais de púlpito. Ao voltar a congregar, trago comigo essa quietude interna. Não dependo da energia da multidão para sentir a presença de Deus; eu a levo comigo para dentro da congregação. Essa independência espiritual é o que me permite estar no mundo, e agora na igreja, sem ser "do mundo" das intrigas e das disputas de poder religioso. Sou um observador participante, um adorador livre que encontrou o equilíbrio entre a solidão necessária e a comunhão desejada.
Um dos maiores grilhões do fanatismo religioso é a crença de que existe uma única organização na Terra que detém o selo de aprovação exclusiva de Deus. Essa mentalidade de "nós contra eles" é o que alimenta o isolamento e o orgulho espiritual. No meu retorno consciente, abandonei essa ilusão. Compreendi que não existe "a" igreja verdadeira no sentido de uma denominação específica que seja a única detentora da verdade. A "igreja", no sentido bíblico original (ekklesia), é composta por indivíduos sinceros espalhados por todas as nações, culturas e, sim, diferentes denominações, que buscam a Deus em espírito e verdade.
Ao retirar o peso da "infalibilidade" de cima de uma igreja, eu a coloco no seu devido lugar: o de uma ferramenta humana. Uma igreja pode ser um excelente lugar para aprender, cantar e servir ao próximo, mas ela não é a portaria do céu. Minha salvação e minha relação com Deus não dependem do logotipo na fachada do prédio onde me reúno. Quando você entende que nenhuma igreja é "a verdadeira", você para de idolatrar a organização e passa a focar no que realmente importa: o Cristo que a organização deveria representar. Isso me permite congregar com os irmãos sem a pressão de ter que defender cada erro histórico ou contradição doutrinária do grupo.
A história mostra que sempre que um grupo de homens se autodenomina o "único canal de Deus", o resultado é o controle e a supressão da liberdade individual. O conceito de "igreja verdadeira" institucionalizada serve apenas para prender o fiel pelo medo — o medo de que, se ele sair daquele círculo, estará fora da proteção divina. Minha experiência de dez anos fora me provou o contrário: Deus esteve comigo no silêncio e no isolamento. Portanto, ao congregar hoje, faço-o sabendo que estou em uma comunidade de cristãos, não em um "abrigo exclusivo" de salvação.
Jesus nunca disse: "Eu sou a Organização Verdadeira". Ele disse: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (João 14:6). A Verdade é uma Pessoa, não um estatuto social ou uma sede mundial. Quando minha fé está ancorada na Pessoa de Cristo, e não na estrutura da igreja, torno-me imune ao fanatismo. Se a igreja que frequento errar, minha fé não se abala, porque minha âncora não está presa ao púlpito, mas ao Messias. Congrego com outros crentes sabendo que somos todos, líderes e liderados, aprendizes em busca da luz, e ninguém detém o monopólio do Sol.
Voltei a congregar para compartilhar a jornada, não para encontrar um "clube da verdade". Minha igreja verdadeira é invisível e espiritual; ela existe onde quer que dois ou três estejam reunidos em nome de Jesus, com sinceridade e liberdade. Reconhecer que nenhuma instituição humana é detentora da verdade absoluta é o que me permite ser um cristão livre, capaz de amar o próximo sem rótulos e de adorar a Deus sem cercas.
Meu retorno à comunhão é o ato de um homem livre. Não sou mais um súdito de uma organização, mas um filho que escolheu estar na casa do Pai por vontade própria. Congrego sem fanatismo, sem medo e sem ídolos humanos. Minha fé sobreviveu ao ateísmo e ao isolamento; por isso, ela é hoje mais forte do que qualquer dogma. Vou à igreja para celebrar a Deus, mantendo minha mente aberta e minha consciência cativa apenas a Ele.
Essa trajetória me transformou em um "cristão sem fronteiras". Posso apreciar a beleza da liturgia e o calor da irmandade, mas minha âncora está lançada em águas muito mais profundas do que qualquer denominação pode alcançar. O livro da minha vida ainda está sendo escrito, mas o capítulo da escravidão mental foi encerrado definitivamente.
José Gomes


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