terça-feira, 21 de abril de 2026

Por que não volto mais a ser Testemunha de Jeová? Entenda!

Mesmo após uma década de uma das maiores decisões que tomei na vida até hoje, muitos ainda me perguntam se eu voltaria à Organização das Testemunhas de Jeová. A minha resposta pode até parecer egoísta para quem não me conhece, mas a minha decisão de não retornar à Organização das Testemunhas de Jeová não nasce de impulso ou ressentimento, mas de um processo longo de análise, confronto interno e, sobretudo, de compromisso com a própria consciência. Ao longo do tempo, percebi que permanecer ali exigiria de mim algo que considero inegociável: abrir mão da coerência entre aquilo que entendo das Escrituras e aquilo que me é exigido acreditar e praticar.

Um dos pontos centrais dessa ruptura está na autoridade exercida pelo Corpo Governante, a liderança máxima da Organização. Na prática, ele não atua apenas como orientador, mas como intérprete final e inquestionável das Escrituras. Isso cria uma dinâmica em que o acesso ao texto bíblico deixa de ser direto e passa a ser mediado por uma estrutura que define previamente o que deve ser entendido. No entanto, ao ler a Bíblia, encontro um chamado à responsabilidade individual diante de Deus: “cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Romanos 14:12). Isso implica que minha fé não pode ser terceirizada.

Lá dentro, somos submetidos à exigência de concordância absoluta, que foi um dos aspectos que me levou a essa decisão. Lá, divergir não é tratado como parte do processo de reflexão, mas como sinal de fraqueza espiritual. No entanto, a própria Escritura incentiva o exame cuidadoso: “examinai tudo, retende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:21). Quando a investigação é limitada e o questionamento desencorajado, a fé deixa de ser uma convicção e passa a ser uma conformidade.

Há também questões doutrinárias específicas que, para mim, deixaram de fazer sentido à luz do texto bíblico. Ensinos como a centralidade de datas como 1914, a limitação da mediação de Cristo a um grupo específico, ou a exclusividade de uma organização como único canal de Deus não encontram, em minha leitura, base clara nas Escrituras. Pelo contrário, encontro afirmações como: “há um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo” (1 Timóteo 2:5), sem distinções restritivas. 

A imagem abaixo é uma prova disso. Nela vemos o que seria as mãos de Jeová, segurando os prédios da Torre de Vigia e dela saindo publicações que alimentam as Testemunhas em toda a Terra. Pergunto a você: para se achegar a Deus, precisamos do Corpo Governante? Não seria de Jesus esse papel? Apenas reflita!

A Sentinela de 1º de outubro de 1987 página 10

A própria celebração da ceia é um exemplo marcante. Ao observar o relato bíblico, vejo um convite à participação. No entanto, a prática institucional estabelece uma divisão que me parece não estar presente no texto. Aceitar isso exigiria ignorar aquilo que leio de forma direta, e pior que isso, é uma desobediência a ordem clara de Jesus, quando este disse: "Comei e bebei".

Outro ponto que considero grave é a necessidade de ensinar doutrinas com as quais já não concordo. A pregação, que deveria ser expressão de fé, tornou-se para mim um dilema moral. Como ensinar algo que não acredito? A Bíblia é clara ao afirmar: “tudo o que não provém de fé é pecado” (Romanos 14:23). Permanecer nesse modelo significaria agir contra a própria consciência. E posso afirmar com toda franqueza: a pregação é no fundo condicionada ao fato de ter que relatar todos os meses. Neste relatório, a gente colocava quantas horas trabalhou no serviço de pregação, quantas revistas entregou, quantos estudos dirigiu, entre outros. E para os anciãos congregacionais, fazer pouco é sinônimo de fraqueza espiritual. 

Além disso, há a questão da liberdade de pensamento. A orientação para limitar pesquisas e confiar exclusivamente na literatura produzida pela própria organização cria um ambiente fechado, onde outras perspectivas não são consideradas. No entanto, a verdade não teme investigação. Se algo é verdadeiro, deve resistir ao exame, não evitá-lo. (Atos 17:10-11; 1 João 4:1)

Outro fator que não posso ignorar são as mudanças constantes em certas interpretações. Revisões não são, por si só, um problema. O problema surge quando aquilo que antes era ensinado como verdade absoluta é posteriormente modificado, enquanto a exigência de aceitação permanece a mesma. Isso revela que a estabilidade da crença está mais na autoridade que a define do que na consistência do conteúdo. E em tempos recentes, mudanças significativas foram implementadas pela liderança, mas se mudou, é por que o anterior estava equivocado, mas o equívoco era visto como "verdade", e pregado às pessoas como sendo a "verdade divina", e agora?

Também não posso deixar de mencionar o impacto dessas estruturas sobre a consciência individual. Em diversos momentos, percebi que a permanência exigia ajustar meu pensamento para se alinhar ao grupo, e não o contrário. No entanto, a fé verdadeira não pode ser fruto de pressão, mas de convicção.

Outro ponto que reforça minha decisão é a forma como determinadas práticas são estabelecidas a partir de inferências que vão além do texto bíblico. Em alguns casos, regras são construídas não a partir de mandamentos claros, mas de conclusões derivadas de relatos isolados ou de critérios aplicados de forma seletiva. Isso gera uma inconsistência difícil de ignorar. Se a base da fé é a Escritura, então as normas deveriam emergir dela de forma direta e coerente, e não de interpretações que, em certos momentos, assumem o mesmo peso de uma ordem divina.

Também passei a refletir sobre a forma como a espiritualidade é medida. A associação entre fé e indicadores quantitativos, como o tempo dedicado a atividades religiosas, cria uma lógica que se aproxima mais de desempenho do que de convicção. A Escritura, no entanto, aponta para uma espiritualidade centrada no interior do indivíduo, no coração, na intenção e na sinceridade. Quando a fé passa a ser avaliada por números, corre-se o risco de substituir a profundidade da experiência espiritual por uma aparência mensurável, o que pode distorcer completamente seu significado.

Por fim, compreendi que a fé não pode ser vivida dentro de limites impostos à investigação e ao pensamento. A busca pela verdade exige liberdade para questionar, comparar e refletir. Quando essa liberdade é restringida, o que se preserva não é necessariamente a verdade, mas um sistema específico de interpretação. E foi justamente essa percepção que consolidou minha decisão: não posso abrir mão da minha capacidade de pensar, analisar e buscar compreender por mim mesmo. Se a fé é verdadeira, ela deve suportar o questionamento — não depender da sua ausência.

Diante de tudo isso, minha decisão é clara. Não retorno, não por rejeição à fé, mas por compromisso com ela. Permanecer fiel à própria consciência não é rebeldia — é responsabilidade. E é justamente essa responsabilidade que me impede de voltar. Espero que tenham entendido os motivos, não precisa concordar com eles, apenas compreender.


José Gomes

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